09 fevereiro 2011

- Posso?
Simão sorriu distraído e tirou a mala. Sentou-se mais direito e esforçou-se para não descontrair ao ponto de ocupar um banco que não lhe pertencia.
Voltou a colocar o braço junto à janela e apoiou a cabeça na mão esquerda. Focou o mundo com dificuldade para o apreciar. Tinha necessidade de procurar o belo das coisas. Procurava-o agora com frequência, em segredo.
Atrás de si, ouviam-se vozes femininas discutindo as novidades da vida de quem invejavam. Já as tomara como música de fundo. Aqueles timbres impressionantemente melodiosos eram peça importante nessa busca da beleza por entre o monótono. Não fosse a timidez de que era dono, ter-lhes-ia agradecido por tal ajuda.
- Pedro! Olha as pessoas! - ouviu. A voz vinha do banco da frente e tinha a certeza que aquele aviso feito por uma namorada histérica fizera mais pessoas olhar que o gesto atrevido do tal Pedro.
Com os olhos ainda na janela, sentiu um cheiro que o levava de volta a tempos que hoje lhe traziam repulsa. Ouviu as vozes arrastadas que já conhecia tão bem e  lembrou-se do toque do tabaco misturado. Aquele tão conhecido cheiro levava-o sempre para uma dimensão superior a si mesmo. E já haviam passado 3 anos.
- Simão, não sais aqui, pá?
- Hum?
- Simão?
Deu finalmente a tal olhadela atenta para o mundo lá fora e reconheceu o ponto de chegada.
- Quer sair?
- Não, acho que vou até à última paragem - disse.
Outra vez, pensou.